Como nascem as ideias

Correndo o risco de soar como uma blogueira que começa seus stories com “Então, tem MUITA GENTE perguntando”, hoje decidi escrever sobre um questionamento recorrente que recebo toda vez que peço sugestões de temas para escrever aqui. Vamos falar sobre um dos primeiros estágios da criação de uma história: a ideia.

Antes de me aprofundar, quero deixar claro que tenho a TOTAL noção de que nenhuma das histórias que escrevi até hoje partiram de uma ideia genial. Para ser sincero, a maior parte delas sempre começa com “qual trauma da minha adolescência irei desenterrar dessa vez?” e, a partir disso, crio personagens que são uma mistura de quem eu fui com quem eu gostaria de ter sido.

Acredito que a ideia não é o que molda seu livro. Ela é apenas o pontapé inicial para desdobrar algo muito maior, mas é uma etapa importante porque, muitas vezes, a maneira como enxergamos nossas ideias é o que vai definir se aquela história será contada ou não. Um sonho absurdo (eu tenho muitos desses) pode ser o início de algo incrível, ou só uma alucinação sem sentido que sua cabeça produziu durante a noite porque você está emocionalmente exausto e foi dormir depois de jantar meio pacote de Cheetos murcho e uma Coca geladinha.

Muita gente diz que uma boa ideia é sempre uma pergunta, e a sua história será a resposta. E se a sociedade fosse dividida em castas sociais que lutam até a morte em um evento televisionado para o país inteiro? E se um bruxo se apaixonasse por um vampiro que também é seu arqui-inimigo? E se três desconhecidos ficassem presos em um elevador na véspera de Ano Novo? Escrever ficção é ter uma lista infinita de perguntas e passar o tempo todo pensando nas respostas.

Mas, às vezes, a gente tem uma resposta e nenhuma pergunta, e o processo de escrita se torna justamente procurar as questões certas que casam com o que a gente tem para contar. É como tirar a prova real de um cálculo, só que mais fácil porque não envolve muita matemática.

Quando comecei a escrever Quinze dias, tudo o que eu tinha era a vontade de escrever uma história de amor com um protagonista gordo. Queria que fosse um livro divertido, como uma comédia romântica que a gente assiste para esquecer que o mundo é horrível. E, a partir disso, começaram as perguntas: quem são esses dois garotos? Como eles se conheceram? Do que eles gostam? Do que eles não gostam? Eram perguntas simples que me ajudavam a imaginar os personagens como pessoas reais, e quanto mais respostas eu tinha, mais clara ficava a imagem deles na minha cabeça.

Veja bem: você tem sua ideia inicial, ou apenas uma vaga noção do gênero literário que mais combina com você. Você fez suas perguntas, achou (algumas) respostas, começou a escrever uma ou duas vezes, abandonou a história, tentou voltar e não sabe o que fazer além de encarar a tela do computador e gritar enquanto questiona sua capacidade técnica de escrita e também seu valor como ser humano ao se dar conta de que uma única ideia não vai te levar a lugar nenhum.

Respira. Tá tudo bem. Eu passo por isso semanalmente.

A verdade inconveniente é esta mesmo: uma única boa ideia não adianta de nada quando a gente percebe que um bom livro é feito de uma sucessão de soluções inteligentes e frases bem criadas e cenas equilibradas. É preciso ter ideias o tempo todo e isso pode parecer assustador. Mas fica bem mais fácil quando você observa e registra. Baseado nessas duas ações, vamos às soluções práticas e dicas porque eu, pessoalmente, odeio ler um texto longo que não me oferece soluções práticas e dicas!!!

(Pausa para o clássico aviso de: isso é o que funciona PRA MIM, e pode não funcionar para outras pessoas etc etc etc)

Lá em 2016, escrevendo Quinze dias, eu achava que meu cérebro era uma máquina. Eu não anotava absolutamente nada e passei quase o ano inteiro escrevendo e sabendo qual seria a última frase do livro sem nunca anotar porque eu tinha certeza de que não iria esquecer. Eu não esqueci, mas, conforme comecei a trabalhar para me tornar um Escritor Profissional™, percebi que meu cérebro é inútil, me odeia e não serve para nada. Perdi muitas boas ideias por não ter a decência de parar por um minuto e registrar aquilo.

No meu segundo livro, Um milhão de finais felizes, o protagonista Jonas carrega um caderno de ideias no bolso e, ao longo da história, registra várias coisas que ele observa e rapidamente transforma em plots para possíveis livros. Este é o sistema dele (porque ele vive em um universo alternativo onde casais de fato se conhecem em uma cafeteria e achei que ter um caderninho combinaria com a atmosfera da vida de Jonas), mas o meu é um pouco parecido.

É claro que eu não consigo pensar em um plot inteiro a partir de uma conversa de dois minutos com um completo estranho. Mas, por escrever livros contemporâneos, a maioria dos conflitos que existem nas minhas histórias nascem de observações e conversas do dia-a-dia. Acho que isso funciona para quem escreve ficção especulativa também porque a essência humana é a mesma e aí você adiciona dragões, uma nave espacial ou um lobisomem.

Conforme prometido: EXEMPLO PRÁTICO!!!

Este é o meu aplicativo de notas no celular. A minha versão de caderninho do Jonas em um aparelho que, de fato, fica no meu bolso o dia inteiro. Eu salvo absolutamente tudo aqui (recibos de pagamentos, links encurtados que eu preciso postar nas redes sociais com frequência, listas de tarefas etc). Não é nada sofisticado, só o próprio aplicativo de anotações que já vem instalado no celular e celebridades usam para printar pedidos de desculpa por terem sido racistas. Mas com a organização certa, ele pode ser um excelente banco de ideias!

As principais duas pastas para mim são 📒 Referências e 📌 Ideias. Basicamente, na primeira entra qualquer besteira que eu estiver pensando, sonhos que tive, frases interessantes ou conceitos que aprendi lendo algum artigo (ou, na maioria das vezes, um tuíte). Eu revisito as referências quando estou buscando por inspiração (geralmente antes de dormir) e se vejo algo interessante e promissor ali, ela vai para a pasta de ideias com um desenvolvimento um pouco mais aprofundado.

Essa semana, por exemplo, eu estava conversando com a Duds sobre como ela conseguiu escrever um TCC durante a pandemia e ela disse que “Tinha tempo pra tudo mas não tinha cabeça pra nada”. Essa frase mexeu comigo de alguma forma e não quer dizer que eu vá colocar ela em algum livro um dia (se eu colocar, já deixo aqui os créditos para Maria Eduarda Saldanha), mas me fez pensar quem poderia estar na situação de ter tempo pra tudo e cabeça pra nada. Alguém preso em uma missão espacial sem contato com a Terra? Um ser imortal que poderia fazer o que quisesse, mas está cansado de viver porque literalmente já viu de tudo e percebeu que a tendência da sociedade é piorar? Ou só uma pessoa presa em casa devido a uma pandemia?

Guardei essa frase por um dia, desenvolvi uma ideia no dia seguinte e agora ela está lá, guardadinha para quando eu precisar. A inspiração para criar pode vir a qualquer hora, de qualquer lugar. E, para mim, toda vez que isso acontece eu jogo nessa pasta para deixar a ideia tomar forma na minha cabeça com o tempo. Porque, no fim das contas, boas ideias levam tempo.

Na pasta de referências já salvei muitas coisas:

  • A letra de Invisible String da Taylor Swift que me inspirou a pensar numa história sobre acasos do destino.
  • A definição de triângulo amoroso da Dayse Dantas (assinem a newsletter dela, é incrível!).
  • Uma lista infinita de citações de livros que li recentemente.
  • Uma coleção de epígrafes (aquelas citações que muitos autores usam no começo dos seus livros).
  • Um sonho que o Rafa me contou que teve sobre uma viagem de Ensino Médio onde dá tudo errado.
  • E muito mais!!!!

O que eu quero dizer com isso tudo é que não existe uma fonte secreta de ideias. Não existe um método para ser criativo o tempo todo. Escrever ficção passa longe da imagem do autor acordando cedo, tomando café e digitando palavras enquanto o sol nasce lá fora. É um trabalho que exige pensar o tempo todo, fazer perguntas e escolhas, observar os acontecimentos ao seu redor e analisar essas observações porque elas são o reflexo de como você enxerga o mundo. E o seu jeito de enxergar o mundo é o que torna uma história sua. Porque ninguém vai ver as coisas com os seus olhos se você não dedicar tempo e esforço para nos contar.

Agora vai lá, colete suas ideias, observe a vida e escreva uma história incrível. (Nunca sei terminar posts mas tento concluir com uma mensagem de incentivo que sempre acaba parecendo o fim de uma palestra em vídeo onde eu digo frases prontas apontando para a câmera enquanto, ao fundo, roda a imagem de uma andorinha batendo as asas).

3 comentários em “Como nascem as ideias

  1. João P

    Adorei o post, Vitor !
    No meu bloco de notas eu tenho salvo ideias aleatórias de diálogos e cenas, que muitas vezes não combinam em nada com o que eu estou escrevendo no momento. Salvo exatamente tudo, mesmo que não faça sentido para o momento… é como se fosse um plano B.
    Mas eu acho que o problema maior é que as pessoas, geralmente, escrevem com muita pretensão e desespero de entrar o mais rápido possível no mercado editorial e ter seu livro publicado, então por isso ficam nessa saga gigantesca e cansativa de ter uma ideia incrível, e quando essa ideia surge ela se torna o único foco de aperfeiçoamento.
    A gente tem que deixar que as ideias surjam de forma natural e deixar que as coisas amadureçam com o tempo, claro que a gente deve investir tempo e concentração, mas a gente não tem que ficar com o pensamento de que a nossa primeira ideia e o nosso livro vão ser O Livro. Acho que é por isso que eu sinto que minha escrita flui de certa forma, eu sou a pessoa mais anônima que eu conheço e não tenho cobrança externa ou interna sobre o meu processo e as minhas ideias.

    Tenho uma pergunta (que é a coisa mais boba do mundo, mas ainda assim uma duvida grande). Quando você escreve, você escreve tudo em um arquivo só ou divide a historia por arquivos, cada arquivo um capítulo ?

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    1. Vitor Martins

      Oi João, tudo bem? Muito obrigado pelo comentário!

      Sobre a sua dúvida, eu escrevo em um programa chamado Ulysses, onde eu consigo criar uma pasta de arquivo único com várias “folhas” dentro dele e no final exportar tudo junto. Daí eu uso meio que um arquivo para cada capítulo. Mas quando trabalho em programas como Word (ou Google Docs) eu faço tudo num arquivo só e na edição deixo os títulos dos capítulos formatados como H1 ou H2 pra ficar mais fácil de navegar pelo manuscrito sem ter que ficar subindo e descendo na barra de rolagem!

      Espero ter ajudado.
      Beijooo!

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