3 trechos exclusivos de Casa 8

Hoje, 16 de dezembro de 2020, fiz uma promessa. Em meu MICROBLOG Twitter, prometi que se a campanha de Arlindo (o quadrinho incrível da @ilustralu) chegasse em 100% nas primeiras 24 horas, eu compartilharia três trechos do projeto que estou escrevendo atualmente. E é com o coração batendo forte, um sorriso enorme no rosto e uma sensação de “ai meu deus” que venho CUMPRIR A PROMESSA! 

CONTEXTO: Meu projeto atual tem o nome temporário Casa 8 porque o livro inteiro acontece dentro de uma casa, CUJA QUAL é a casa de número 8. O livro tem três protagonistas vivendo em três anos diferentes (2000, 2010 e 2020) e eu decidi que seria divertido compartilhar um trecho de cada um deles com vocês. VAMOS?

AVISO: Essa é a primeira versão de tudo, nunca antes vista pela minha agente ou minha editora. Ninguém além de eu mesmo mexeu nesse texto então não considerem isso como algo final porque, quando o livro finalmente existir, vai estar melhor.


Ana

— Deixa de bobagem, vai — Celso diz, entregando a taça mais bonita para a filha. — É o começo de um novo milênio! A gente precisa comemorar. O que os próximos mil anos guardam pra gente? Onde estaremos na virada do ano 3000?

— Mortos, eu espero — Ana responde, aceitando o convite do pai e dando uma golada na bebida ácida apenas para confirmar que, de fato, ela odeia cidra de maçã.

— Nunca se sabe — Celso rebate. — A tecnologia pode tomar rumos inesperados. A minha consciência pode ser colocada em uma máquina. Um robô. O meu legado pode ser eterno.

Ana ri com a imagem mental de um robô com a cara do pai, a calça de flanela, os óculos aviador com hastes frouxas e os cabelo cheios e grisalho escondidos debaixo de um boné da Copa de 98 da França. Isso se os robôs do futuro tiverem cabelo. E roupinhas.

— Pai, imagina que pesadelo viver mais de mil anos — Ana diz. — Imagina a quantidade de estresse que você vai ter que enfrentar. Certeza que vão inventar um novo bug do milênio a cada dez anos.

— Um bug da década, então — Celso corrige.

— Você entendeu o que eu quis dizer. Viver mais de mil anos é absolutamente o pior cenário de todos.

— Só é bonito quando são os vampiros dos livros que você gosta, né? Seu pai aqui está chegando nos quarenta e cinco e já deu tudo o que tinha que dar — Celso diz, abaixando a aba do boné para esconder a cara de bobo.

— O Lestat tem só duzentos e cinquenta e nove anos — Ana responde, um pouco envergonhada por ter essa informação na ponta da língua, resultado da recém releitura que ela fez de Entrevista com o Vampiro. Pela quarta vez. — Então eu te deixo viver um pouco mais do que ele, tá bem? Trezentos anos está bom pra você?

— Acho que sim — Celso responde, depois de refletir por alguns segundos. — Dá pra te perturbar bastante por trezentos anos. Implicar com todos os namoradinhos que você trouxer pra casa.

— Não vai contando com muitos namoradinhos não — Ana diz, com um sorriso amarelo que nas entrelinhas grita “PORQUE EU GOSTO DE GAROTAS”.

Mas, apesar de compreender linhas de códigos, barulhos esquisitos saindo de dentro de uma máquina e luzes piscantes na base de um monitor, Celso é péssimo para ler as entrelinhas. E isso faz o coração de Ana pesar um pouquinho no peito, enquanto ela se afunda ainda mais no sofá com a taça de cidra esquentando em sua mão.

Quando o assunto chega nos namoradinhos, ela nunca sabe o que fazer. Ela puxa os cordões do seu moletom roxo e velho, se perguntando o que significa usar roxo na virada do ano.


Gregório

— Tia — Greg chama quando os dois estão descansando na sala.

Catarina está jogada no sofá velho e confortável enquanto rabisca uma série de anotações em uma caderneta. Greg está sentado em uma poltrona amarelada jogando Pokémon.

— Oi — Catarina diz, sem tirar os olhos do caderno.

— Sabe o Tiago? — Greg diz, sem tirar os olhos dos Pokémon.

— Qual Tiago? O Tiago Tiago? — ela pergunta, como se os dois conhecessem pelo menos cinco Tiagos em comum.

— O que traz o almoço pra mim.

— Filho da Clélia. Sei. O que tem ele? — ela questiona, perdendo o interesse nas suas anotações e encarando o sobrinho, curiosa para saber onde essa conversa vai dar.

Greg não sabe. Porque ele não se preparou para este interrogatório. Ele imaginava que quando perguntasse “Sabe o Tiago?” sua tia começaria a falar informações aleatórias sobre o menino, saciando todas as curiosidades de Greg e o munindo com infinitos tópicos de conversa para a próxima vez que os dois se verem, quando Tiago não estiver jogando tênis ou tocando em uma banda ou resolvendo crimes com um cachorro ou qualquer outra coisa que ele faça em seu tempo livre.

— O que tem ele? — Catarina insiste porque no fundo ela sente um certo prazer em ver seu sobrinho constrangido.

— Ele é legal né? — Greg comenta, porque não sabe o que mais ele poderia dizer.

— Você está sendo gentil com ele, né? — a tia pergunta. Existe quase um tom de ameaça em sua voz.

— Sim, sim — Greg se explica. — A gente se dá bem.

Catarina abre um meio sorriso.

— Muito bem. Eu vi esse garoto crescer. Passou por muita coisa difícil, tadinho. Perdeu o pai cedo… — ela começa.

Greg fecha seu Nintendo DS, voltando sua atenção totalmente para Catarina porque parece que agora ela vai começar a falar mais.

— Coitadinho. Ano passado ele terminou com o namorado, né. Veio pedir conselho pra mim. Logo pra mim.

— E o que você disse? — Greg pergunta mas, tentando não dar muito atenção para o fato de que, na sua mente, a palavra “namorado” ecoa como uma sirene.

NAMORADO. NAMORADO. NAMORADO.

— Eu não entendo muito bem como isso funciona com relacionamentos gays, então mandei ele assistir Constantine. Ver o Keanu Reeves matando demônios sempre me inspira a matar os meus.

GAYS. GAYS. GAYS.

A cabeça de Gregório parece que vai explodir. Na sua casa a a palavra “gay” nunca é falada. Lá no fundo, Greg acredita que seus pais não vão ter problema algum em aceitar sua sexualidade. Eles são pessoas razoáveis. Mas, de alguma forma, os dois mantém uma certa distância. Seu pai comenta sobre seus clientes “homossexuais”, sua mãe fala sobre o “beijo homossexual” que teve na novela. Greg nunca viu problema nisso, em se sentir um estudo científico dentro da própria casa. Mas ouvir sua tia dizendo “gays” como quem diz qualquer palavra ordinária como “queijo”, “porta” ou “limonada suíça” faz com que ele sinta um conforto inédito.

Por um milésimo de segundo Gregório se sente em casa.

Mas ele não sabe muito bem o que fazer com esse sentimento. 

— Eu nunca assisti Constantine — é tudo que ele consegue dizer.

— Pega lá na locadora. Vamos assistir agora — Catarina diz.

Isso não é um convite. É uma ordem.


Beto

— Filho, e se eu pintasse o cabelo de vermelho? Não vermelho vermelho. Mas, sei lá, acaju talvez. Ainda falam acaju? Parece cor de cabelo de velha, né? Não é isso que eu quero. Parecer mais velha. Eu só queria, sei lá, mudar o visual? Eu posso pedir a tinta na farmácia e pintar em casa. Não deve ser difícil, né? Na internet deve ter vídeos ensinando. Procura aí “pintar cabelo vermelho em casa” — Helena diz.

São quase nove da noite e os dois estão sentados no sofá. A TV ligada no mudo porque as notícias são ruins demais para serem assistidas depois do jantar mas, de certa forma, a imagem sem som do apresentador do jornal local faz com que os dois se sintam menos sozinhos.

— Acho que sim — Beto responde, sem prestar muita atenção na mãe.

— Sim, eu vou ficar bonita de cabelo vermelho ou sim, dá pra gente pintar em casa? — Helena pergunta, com os olhos fixos em um romance de época que ela começou a ler no dia anterior e já passou da página cem.

Beto nunca entendeu como ela consegue ler e conversar e planejar uma mudança de visual ao mesmo tempo.

— Você vai ficar bonita de todo jeito — Beto diz para a mãe. — E talvez você nem precise procurar na internet como pintar o cabelo em casa. Essas coisas não vem com instruções na embalagem?

— Eu sou uma pessoa visual, Roberto. Eu preciso ver as coisas — Helena responde.

— Você pode ver as palavras e interpretar as frases e entender como se pinta o cabelo em casa. Você é literalmente tem um doutorado, mãe. Eu confio no seu potencial para ler um manual de instruções e saber o que fazer — Beto rebate com um sorriso debochado.

Ele não se preocupa porque sabe que mesmo que tudo dê errado e sua mãe termine com um moicano azul, ela vai ser capaz de enxergar o lado positivo de tudo. É o jeito de Helena. Mas não de um jeito irritante e irrealista, como quem acredita que todo mal acontece por um bem maior e que um vírus se espalhando pelo mundo pode ter um lado positivo porque agora ela consegue passar mais tempo ao lado do filho. Helena sabe que algumas coisas não possuem um lado positivo mas, ainda assim, consegue racionalizar o bastante para entender que nem tudo é o fim do mundo.

(A não ser que esse vírus seja mesmo o fim do mundo, não dá pra saber ainda).

Helena abre a boca para responder mas é interrompida pelo barulho alto do celular tocando. Beto cria uma nota mental para trocar o toque de celular da mãe assim que possível porque, agora que os dois passam o dia inteiro juntos, o som irritante do que parece ser uma rave de robôs extremamente adulterados por substâncias ilícitas está começando a encher sua paciência.

— É sua irmã — Helena diz, observando a foto de Lara na tela do celular e atendendo a chamada no viva-voz porque não há segredos nessa família.

— Oi, mãe — Lara diz do outro lado da linha.

— Oi, filha. Tô aqui com seu irmão. No viva voz — Helena comenta, só por segurança porque, vai que dessa vez Lara decide contar algum segredo.

— Oi, Beto — Lara diz.

— Oi, Lara — Beto responde.

Meu Deus, essa conversa não vai a lugar nenhum.

— Então, eu tava pensando em passar uns dias aí com vocês. Até essa coisa toda passar, sei lá. O escritório inteiro está trabalhando de casa e minhas aulas estão acontecendo online, então eu meio que não perderia nada. E ficaria um tempo com vocês. Estou com saudades — Lara diz, tudo de uma vez para não dar muito tempo para a mãe pensar.

— Também estamos com saudade, Larinha, mas não sei se é seguro vir pra cá agora. Além do mais as linhas de ônibus pra Lagoa estão fechadas. Sabe Deus quando vai abrir de novo. E, mesmo se estivessem abertas, imagina você dentro de um ônibus fechado, com mais duzentas pessoas. Não sei se seria uma boa ideia, filha — Helena diz, pensativa.

— Não cabem duzentas pessoas em um ônibus, mãe — Beto comenta.

— Então, — Lara continua — tem um aplicativo de caronas que vários amigos meus aqui em São Paulo usam. Você consegue dividir uma corrida com uma pessoa que esteja indo pra mesma cidade que você, e é bem mais barato do que ir de ônibus. E não tem duzentas pessoas no carro.

— Pior ainda, Lara. Pegar estrada com um desconhecido? — Helena protesta imediatamente.

— É que eu achei uma mulher no aplicativo que estava oferecendo carona pra Lagoa Pequena.

— Nem pensar, Lara. Nem pensar.

— E ela é ótima, já deu mais de cem caronas pelo aplicativo e a nota dela é cinco estrelas — Lara justifica.

— Filha, isso é só um número na tela do celular. Quem garante que o caráter dela é cinco estrelas. Ela pode ser uma sequestradora. Ou pior. Ela pode estar infectada com o vírus — Helena diz, aterrorizada.

— Eu tenho quase certeza que ser uma sequestradora é pior — Beto comenta.

— Bem, a boa notícia é que ela não me sequestrou — Lara diz tão baixo que mal dá pra ouvir sua voz.

— LARA, COMO ASSIM? — Helena grita tão alto que provavelmente a Rua Girassol inteira escuta.

— Tô chegando na rua de casa, abre o portão pra mim, beijo — Lara diz apressada e encerra a ligação.


Espero que vocês tenham se divertido com esses três pedacinhos da história.

Foi difícil escolher trechos que não dessem nenhum GRANDE SPOILER de Casa 8, mas estou empolgado para que muito-em-breve-um-dia-quem-sabe-talvez essa história esteja DISPONÍVEL no mundo, e não mais apenas no meu computador e na minha mente cercada por um grupo de lobos que fazem uma ciranda emocional em volta de mim toda noite enquanto cantam ”Você nunca vai conseguir!!!!”. Espero que eles estejam errados.

7 comentários em “3 trechos exclusivos de Casa 8

  1. joaop1211

    Assim que recebi a notificação no meu e-mail de uma nova publicação nesse blog, eu parei tudo o que estava fazendo para vir conferir a postagem.
    É aquele ditado: quem precisa passar no vestibular, quando tem trechos inéditos de casa 8, né ?!
    Amei os trechos, Vitor. Mal posso esperar para ter esse novo projeto em mãos…Sinto que Beto e Helena vão ser os melhores personagens desse novo livro, e já estou muito ansioso.
    Sobre o grupo de lobos que fazem uma ciranda emocional em sua cabeça, espante-os ! Você e sua escrita são incríveis, eu sou muito fã, parabéns.

    *Ps: taquem stream na lenda Evermore (!)

    Curtido por 1 pessoa

  2. Izabella

    VITOR DO CÉU! Eu quero esse livro na minha mesa pra já!!! (claro se o vírus não for o fim do mundo, ainda não dá pra saber).

    Mandando boas energias e inspiração pra terminar logo :*

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  3. Érica Sousa

    Ainda bem que Arlindo bateu a meta e o senhor Vitor resolveu NOS PRESENTEAR com essa PRECIOSIDADE!! FELIZ DEMAIS 🙈🙈 Esses lobos ai sao burros a beça, so ignora. O mundo inteiro é seu 💖

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  4. alijumenta88

    Meu Deus eu li Um Milhão de Finais Felizes e Quinze Dias amei os dois! Fiquei louca tentando te acompanhar nas redes sociais e enfim tive o resultado de horas como stalker. Amei esses pequenos trechos, o que me deixou extremamente ansiosa para ter um gostinho a mais!
    O mundo inteiro é seu!♡

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