Momentos Específicos Dos Quais Eu Me Lembro Com Muita Frequência

Existem acontecimentos na minha vida que não estão cercados de nada particularmente especial. Dias comuns onde nada fora do comum aconteceu. Mas momentos que podem ter durado apenas alguns segundos ficaram na minha cabeça por algum motivo, quase como fotografias (ou gifs, porque na maioria do caso as imagens tem movimento) (mas nunca boomerangs porque eu odeio boomerangs e farei de TUDO para destruí-los).

Dia desses, intrigado com essas cenas constantes que me pegam de surpresa sem nenhum aviso, comecei a listar todos elas para tentar traçar alguma relação. Não cheguei em nenhuma conclusão, mas agora tenho uma lista cheia deles. E abaixo, de forma um pouco mais elaborada, falo sobre alguns deles.

E essa é a Lista De Momentos Específicos Dos Quais Eu Me Lembro Com Muita Frequência:

Quando eu tinha uns dezesseis anos comprei meu primeiro MP3 Player nas Casas Bahia. Choveu naquele dia e eu estava todo molhado. Eu não tinha um comprovante de residência ou alguma outra coisa necessária para fazer uma compra nas Casas Bahia naquela época. Eu, que nunca tinha comprado nada de tanto valor na vida, achava que era só pedir o produto, dar o dinheiro e ir embora. Enquanto o vendedor procurava uma forma de realizar aquela venda sem toda a burocracia, fiquei sentado em uma sala de espera. A barra da minha calça estava molhada e rasgada. Molhada por causa da chuva, rasgada porque eu expressava a minha individualidade dessa forma. E meu All Star preto estava ENCARDIDO.

A cena é essa: eu esperando para comprar um produto que queria muito, encarando meu tênis sujo e pensando nas músicas que usaria para preencher todos aqueles 512 megabytes. 


Voltando de Santos com o Rafa um dia. Bem na saída da cidade (ou na entrada dependendo do seu ponto de vista) tem uns containers enormes que ficam no porto. Um monte de passarinhos em cima deles. Provavelmente gaivotas? Não entendo muito de pássaros.

A cena é essa: eu observando os pássaros em cima dos containers e pensando “como pode tanto passarinho assim?” e também “imagina que doido comprar uma coisa importada e, neste momento, ela estar aqui, nessa caixa de metal enorme e coberta de cocô de passarinho”. Eu penso nisso toda vez que faço uma compra online. Importada ou não. (Na verdade, nunca faço compras importadas — nem quando o dólar não estava 7 reais — porque a possibilidade de esperar mais de 3 dias para ter uma coisa pela qual já paguei faz com que eu me sinta financiando uma casa).


Perto da faculdade tinha uma lanchonete. Nada demais. Uma dessas virada para a rua com cadeiras e mesas de plástico na calçada. Eu sempre pedia a mesma coisa, e jantava lá quase todo dia porque saía do estágio direto para a aula. Era um hambúrguer de forno com um cheddar que tinha a cor de um Pantone laranja neon e Fanta Uva porque eu gostava (e sentia que não beber Coca-Cola me tornava especial de alguma forma). Sempre isso: hambúrguer de forno com cheddar e Fanta Uva. Um dia, a moça da lanchonete que a gente chamava de Meu Anjo porque ela chamava todo mundo de Meu Anjo perguntou “o de sempre, meu anjo?” e eu fiquei surpreso.

A cena é essa: eu sentado na mesa de plástico olhando os carros pensando e sentindo uma felicidade boa por ser um cliente que tem um pedido “de sempre” em um lugar. Até aquele momento, eu achava que aquilo só acontecia em filmes. Mas aparentemente acontece na vida real se, bem, você pedir a mesma coisa por diversos dias seguidos, eu acho?


Meu primeiro ano morando sozinho em São Paulo. Não sozinho sozinho. Nunca morei totalmente sozinho porque o aluguel é caro. Mas eu dividia um apartamento enorme com dois garotos que me davam a individualidade na medida ideal para que eu me sentisse sozinho, e o conforto de não ter que lidar com imobiliárias por conta própria. Era um dia de semana. Estava meio nublado, ameaçando a chover, ventinho gelado, meu tipo favorito de dia. Menti no trabalho. Falei que estava passando mal mas só estava cansado, solitário e triste. De certa forma, eu estava passando mal, acho. De tarde eu fui ao shopping e na época eu tinha essa bobeira de ir no Starbucks e dizer que meu nome era Hércules (naquele momento em específico a Sara Bareilles tinha acabado de lançar o excelente álbum The Blessed Unrest, e eu era obcecado pela faixa 3, Hercules) (ainda sou).

A cena é essa: Eu sentado na livraria do Shopping Center Norte, sozinho e muito triste, abrindo um sorriso ao ver que o barista da Starbucks escreveu Hércules de um jeito muito absurdo (não vou lembrar exatamente como foi agora e, apesar de saber que em termos narrativos seria muito melhor se eu inventasse um jeito absurdo de se escrever Hércules para tentar espremer uma risada de quem está lendo, não me sentiria honesto com minhas próprias memórias se fizesse isso) no meu copo de Chá Verde Gelado Com Limonada E Essência De Framboesa. A bebida eu lembro especificamente porque sempre peço a mesma coisa. Mas não o bastante para que baristas de todas as Starbucks possam me ver chegando e perguntarem “o de sempre, meu anjo?”.

2 comentários em “Momentos Específicos Dos Quais Eu Me Lembro Com Muita Frequência

  1. Caroline Cardozo

    Eu senti algo parecido com a história do “Meu anjo”. Eu sou flamenguista roxa e eu e meu marido não temos acesso a payperview nem nada do tipo, então sempre íamos pro bar assistir o jogo. Uma cerveja pro primeiro tempo, uma pro segundo, pra gente poder sentar e assistir e ao mesmo tempo não gastar horrores pra isso.

    A gente estava chegando no bar que a gente ia, o garçom que sempre atendia a gente viu a gente chegando, apontou e falou “Brahma?”. Quando a gente sentou na mesa, a cerveja chegou 5 segundos depois, e foi uma felicidade incrível de chegar ao ponto de alguém de um lugar movimento lembrar do que a gente pedia.

    Esse bar e o garçom (que internamente chamamos de Ronaldo porque ele se parece com um jogador chamado Ronaldo (não um Ronaldo famoso, no entanto) ) são umas das minhas maiores faltas na pandemia.

    Curtir

Deixe uma resposta para Blog das Tatianices Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s