A crise das 10 mil palavras

Estou participando do National Novel Writing Month a sério este ano. O NaNoWriMo  (que tem uma sigla divertida que sempre faz com que eu me lembra dos dias em que eu era emo e EsCrEviA AsSiM nA iNteRneT) é basicamente um projeto de incentivo para que os participantes concluam, nos 30 dias de novembro, a escrita de um romance de 50 mil palavras. Essa é uma explicação apressada mas, se você chegou até aqui, é capaz de já saber do que estou falando.

Neste mês estou me dedicando à escrita do meu terceiro livro que, depois de passar por aproximadamente um bilhão de ajustes e mudanças, parece ter chegado a sua ideia final. 2019 tem sido o pior ano da minha vida adulta em termos de produção criativa e, depois de engavetar três ideias já começadas, eu estava satisfeito com o planejamento para esta história que estou usando no NaNo. Ela é simples demais: uma comédia romântica que se passa num ambiente que eu sempre quis escrever (não se empolguem porque é literalmente um ESCRITÓRIO) e, dentro do meu planejamento, eu tinha tudo que precisava para sentar e escrever uma história divertida.

Foi meio difícil chegar nessa parte onde eu decido que vai ser APENAS uma história divertida. Eu repensei muita coisa, reli todas as minhas ideias sobre morte, política, velhice e viagem no tempo até entender que, agora, eu só queria botar pra fora um livro que fosse prazeroso de escrever e engraçado de ler (parte disso veio da minha experiência com Escrito em algum lugar, que eu publiquei na Amazon este ano e foi uma das coisas que eu mais gostei de escrever em toda a minha vida).

Sendo bem sincero, depois de escrever sobre gordofobia e intolerância religiosa, era como se o meu cérebro estivesse me perguntando o tempo inteiro “Tá bom bonita, E AGORA?” e eu estivesse jogando de volta pra ele todas as minhas inseguranças pessoais e temas que fazem parte da minha narrativa de vida enquanto perguntava “TÁ BOM ISSO AQUI OU EU PRECISO CAVAR MAIS FUNDO NO MEU EMOCIONAL????”. Escrever mais uma historinha de amor foi uma decisão difícil de tomar, mas eu tinha certeza de que seria capaz de escrever um livro bom e que me desse orgulho.

Até que…

Relembrando que escrever é simplesmente HORRÍVEL

Eu tenho saído (quase) todos os dias para escrever. Saio do trabalho e vou pra qualquer lugar ficar sentado escrevendo porque sei que se eu for pra casa, já era. Minha casa é um poço de distrações (meus gatos, meu namorado e games). Numa dessas saídas, fui escrever com dois amigos (o Lucas Rocha e a Iris Figueiredo e estou aqui dizendo nomes e sobrenomes porque os dois têm livros EXCELENTES que você deveria ler urgente!!!) e nos momentos de conversa entre uma sessão de escrita e hoje, entramos nesse senso comum de pavor que são as 10 mil palavras. A Iris chama de Síndrome do Capítulo 4, mas isso porque ela escreve capítulos grandes e bem elaborados, enquanto eu escrevo capítulos curtos e depois preciso voltar descrevendo personagens, roupas e a estampa do sofá porque nunca coloco esses detalhes na primeira versão.

A questão é que, depois das primeiras 10 mil palavras, você já se sente seguro o bastante pra entender onde sua história está indo e já conhece seus personagens minimamente bem para ser capaz de ouvir com a voz deles. Isso pode (e deve) sempre ser usado como incentivo, afinal de contas, 10 mil palavras já é um avanço e tanto! Equivale a 20% do NaNo. São 60 mil caracteres! Mais de DUZENTOS tuites (os “novos”, de 280 caracteres) (aliás, lembra quando o Twitter anunciou que ia mudar o limite de 140 para 280 caracteres? E as pessoas RECLAMARAM? Haha, por onde essas pessoas estão AGORA?).

Mas as 10 mil primeiras palavras também podem desanimar a gente muito fácil. Quando elas não parecem empolgantes o bastante, ou quando parece que depois disso tudo a história nem começou ainda, ou quando a sua cabeça escolhe exatamente este momento para ter outra ideia que parece ser muito melhor. Isso tudo é o que está acontecendo comigo NESTE MOMENTO EM TEMPO REAL.

Eu tento manter em mente que não sou muito bom com começos (Um milhão de finais felizes tinha literalmente 4 capítulos antes do livro começar onde nada acontecia. O primeiro capítulo do original era inteiro sobre as CONDIÇÕES DE TRABALHO do Jonas e ele citava COM DETALHES os benefícios que ganhava). Mas é sempre assim, a gente acha que vai ser melhor no próximo e acabamos ficando presos na mesma coisa.

Livros não são seus filhos

Ontem passei o dia relendo tudo que tenho até agora e me sentindo um impostor porque se alguém me falasse “Vitor, empaquei depois das primeiras 10 mil palavras, o que eu faço?” eu diria “Continue escrevendo e mexe nisso depois! Não edita agora!!!!!!!!!”. Mas eu não consigo aplicar NADA DISSO na minha vida. Eu não consigo seguir em frente se tá tudo uma bagunça agora. Não consigo avançar na história se eu nem sei se gosto dos personagens. E meu coração imediatista quer AMAR TODOS ELES agora. Mas eu sei que não vai rolar. Porque eu não conheço nenhum deles. Porque eu só vou conhecer depois que eu começar a ver cada um deles evoluindo na história.

Eu tenho uma amiga que estava grávida e ela disse isso uma vez. Sobre como ela ia em grupos de grávidas e as outras mulheres sempre comentavam como JÁ AMAVAM o filho antes dele nascer e ela só pensava “Mas nosa eu nem CONHEÇO essa pessoa ainda???” e ficava achando que o amor viria depois do parto. Daí o bebê nasceu e ela NÃO AMOU ELE DE CARA. Ela só ficou “AAAAAA!!!!???!?!” por um tempo. Mas depois de uns dias já tava amando. Porque foi só assim que ela começou a conhecer aquele bebê de verdade.

Não que livros sejam nossos filhos. Eu nem acho certo fazer essa comparação porque livro pra mim é trabalho e eu pretendo ganhar dinheiro com eles. Não é assim que filhos funcionam. A não ser que seu filho seja um desses mini-influenciadores de Instagram ou mini-YouTubers que fazem slime e abrem bonecas LOL.

A questão é que: coisas levam tempo (uau). E as pessoas lidam com isso de formas diferentes. Não existem regras pra escrever livros. Essa coisa de “NÃO EDITE ENQUANTO ESCREVE, DEIXA ISSO PRA DEPOIS” é aconselhável mas não é lei. O Stephen King não vai chegar numa motoca com sirene na sua casa pra te dar uma multa por estar fazendo tudo errado. E eu vou ter que resolver a crise das 10 mil palavras (ou do capítulo 4 se você for a Iris) de alguma forma, mais cedo ou mais tarde. Esse post não tem respostas mágicas sobre coisas (infelizmente), mas foi uma maneira de colocar pra fora o que estou sentindo agora durante o processo de escrita do VM3 (vocês acham pretensioso quando chamo meu próprio terceiro livro de VM3? Ainda me sinto inseguro quanto ao TERMO). E também para me sentir bem comigo mesmo por estar pelo menos escrevendo ALGUMA COISA.

4 comentários em “A crise das 10 mil palavras

  1. vitor gabriel

    Oi, Vitor. Eu sou o Vitor.

    Nesse exato momento estou no ônibus a caminho do trabalho e preciso te agradecer por TODAS ESSAS PALAVRAS! Sério. Também estou trabalhando em um livro desde junho e meio que empaquei (essa palavra é engraçada de escrever) no capítulo 11. Eu sei o rumo da história, sei o que acontece com cada personagem (menos um. Ainda não sei o que fazer com você, Cecília ??). Mas eu meio que estou um pouco inseguro com tudo e sempre que releio, sinto vontade de recomeçar e sair colocando todos os detalhes que não pensei da primeira vez. E tipo, eu meio que não tenho muitos amigos que escrevem que nem eu e sempre que compartilho esses SURTOS com eles, vejo na cara de todos o quanto eu pareço louco. É EXTREMAMENTE RECONFORTANTE saber que não sou o único que passa por todos esses perrengues (ok, chega de palavras estranhas) literários. Agora que o Enem passou, posso voltar a focar no meu primeiro rascunho e quero voltar para ele com essa consciência de que não precisa estar 100% incrível da primeira vez (e talvez nem nunca vai estar), mas de uma coisa eu sei, 10 mil palavras É MUITA COISA e eu preciso reconhecer isso!!!!!!!!!

    Obrigado, Vitor. Você me ajudou MUITO.

    Do seu leitor, Vitor. ??

    PS: Te desejo toda a sorte do mundo nesse seu novo processo de escrita! Você é incrível!

    Obter o Outlook para Android

    ________________________________

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  2. Ana Ferrari

    Acho que todo o processo de escrita é um grande processo de nós convencermos que está tudo bem em ser ruim.
    As pessoas só costumam reconhecer e dar valor quando o produto final estiver bonitinho e pronto, então a gente aprende isso, e tem repulsa de tudo que criamos que não é perfeito (o que é quase tudo no começo!)

    Eu passei pelos 10k, e odiei todas as palavras, ainda as odeio na verdade, mas eu fiz aquilo que você fala para fazer e não fez, continuei escrevendo sem revisar e cheguei nas 20k. Elas continuam horríveis e os personagens continuam fracos e sem propósitos (isso por que eu ainda fiz o planejamento inteiro da história, imagina se não tivesse feito!) Mas cada dia eu trabalho o meu medo de ser ruim, meu medo de ser a pior escritora do mundo que ninguém vai querer ler…Eu penso tudo isso, e aí eu levanto no dia seguinte e continuo escrevendo, arrasando nessa coisa de ser horrível.

    Por que eu já passei por aqui antes, e o que eu tenho que fazer agora é dar trabalho pra Ana do futuro, a que vai revisar e vai trabalhar tão duro quanto eu tô trabalhando agora, para fazer essa coisa horrível se tornar legível.
    Eu confio nessa Ana do futuro, e só preciso me preocupar em dar algo para ela começar, mesmo que seja algo ruim ( e eu sou ótima em ser ruim nos primeiros manuscritos).

    Foca no processo, você só tem que tirar essa ideia de você, em algum momento você vai saber a cor do sofá, mas primeiro você precisa escrever que existe um e ele está ali naquela sala.

    Enfim, continue escrevendo, por que eu já quero ler e por que tudo bem você escrever uma primeira versão horrível, eu não tenho dúvidas que você vai trabalhar pra caramba para fazer a versão final ser incrível ( afinal, eu não faço ideia de quais são os benefícios que o Jonas recebia no trabalho).

    Beijos de luz ✨

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  3. Eu

    Eu acho super válida a sigla. Me lembra a Pabllo Vittar e gosto dela. Hahaha
    E, sobre as 10 mil palavras, não sei se posso opinar muito, mas essas coisas sempre se acertam no final e você certamente vai publicar o livro e reler esse post/relembrar dessas crises com um sorriso no rosto pq é sempre satisfatório ver o quanto conseguimos evoluir, vencer nossas dificuldades e chegar a um resultado incrível. Eu sei disso pq lembro das crises no processo de escrita do VM1 e VM2. haha
    Beijos!

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  4. Matheus Mesquita

    Vitor estou gostando muito de ler os seus textos (apesar de somente ter 3).
    Não sei se você irá ler esse comentário, mas caso sim, favor continuar com o seu blog, porque eu gosto muito do seu modo de escrever e narrar as coisas que acontecem com você.

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